Priscila Gonsales
How to escape ‘free’ services in education and not surrender our data to BigTech
Quando professores e gestores veem o aviso de ‘grátis’ em pacotes de tecnologia da educação que se espalham pelas redes de ensino, a desconfiança nem sempre aparece.
Priscila Gonsales, professora e pesquisadora de educação aberta, novas tecnologias e direitos digitais há décadas, afirma que o ‘grátis’ não existe no mundo digital. Se não pagamos com dinheiro, pagamos com nossos dados.
E o uso indiscrimado e sem transparência dos dados de nossos estudantes e trabalhadores da educação restringe pelo menos três direitos humanos ligados ao direito à educação: acesso à informação, liberdade de expressão e privacidade e proteção de dados.
Acompanhe a nossa conversa com a fundadora e diretora-executiva do Instituto EducaDigital e saiba como o desconhecimento de nossos gestores públicos sobre direitos digitais abre espaço para a privatização da educação por meio da oferta do ensino híbrido, que inviabiliza uma educação de fato aberta.
RUI DA SILVA: Esse é o Eduquê, podcast em português que promove a partilha de conhecimento qualificado por ativistas e acadêmicos sobre questões atuais da educação.
Eu sou Rui da Silva, pesquisador e presidente da direção do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto.
ANDRESSA PELLANDA: E eu sou Andressa Pellanda, coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, do Brasil.
Hoje, vamos discutir como o universo da tecnologia digital e a educação se combinam, gerando novas oportunidades e também problemas para a garantia do direito à educação. Vamos conhecer o que são direitos digitais e saber por que o ensino remoto se mostrou tão problemático durante a pandemia.
RUI DA SILVA: Priscila Gonsales é fundadora e diretora-executiva do Instituto EducaDigital. Também professora e pesquisadora, ela estuda os seguintes temas: educação aberta, tecnologias e direitos digitais.
ANDRESSA PELLANDA: Priscila Gonsales, seja bem-vinda ao Eduquê.
PRISCILA GONSALES: Andressa, muito obrigada pelo convite.
ANDRESSA PELLANDA: A organização que faz parte, Educadigital, promove a educação e direitos digitais, pode nos explicar o que isso significa?
PRISCILA GONSALES: O EducaDigital está fazendo 10 anos agora, na verdade 11, desde que a gente nasceu, em 2010. Desde que foi fundada a organização, o enfoque sim foi a cultura digital, educação aberta na cultura digital. Entendendo a educação aberta como não só recursos educacionais abertos, mas essencialmente práticas educacionais abertas, flexíveis, conforme os contextos diferentes que a gente tem no Brasil que é um imenso, por exemplo, e a gente sempre trabalhou com a questão do letramento digital. Alguns chamam de alfabetização digital, mas eu gosto de chamar de letramento porque eu acho que a gente tem que pensar em vários letramentos, porque a gente está numa sociedade em constante transformação, especialmente quando a gente considera a tecnologia. A tecnologia que a gente tem hoje, né, o cenário da sociedade digital que a gente tem hoje é muito diferente de dez anos atrás, de 20 anos atrás, então o momento a gente fez um reposicionamento em 2018 para falar de educação, entendendo que para nós a educação já é a educação aberta, então quando falamos de educação, a educação para o desenvolvimento humano… E a gente acredita que isso só acontece dentro de uma perspectiva aberta a tecnologias, porque a nossa sociedade é cada vez mais cheia e permeada de tecnologias. E os direitos digitais porque nós estamos vendo uma série de problemas, violações acontecendo agora no mundo atual da sociedade digital. Então a gente precisa unir todo esse trabalho do direito ao acesso à informação, que sempre o nosso foco, por conta da abertura dos recursos educacionais abertos com a liberdade de expressão e também a privacidade e proteção de dados – que são essencialmente os três direitos humanos que acontecem no mundo digital, não só eles, mas a gente enfatiza esses três direitos especialmente: o acesso à informação, a liberdade de expressão e privacidade e proteção de dados.
RUI DA SILVA: Pode nos falar um pouco da diferença entre materiais de acesso aberto e materiais de acesso gratuito.
PRISCILA GONSALES: Claro, essa é uma pergunta bastante recorrente. É importante diferenciar que nem tudo que está gratuito na internet, ao alcance de um clique, é de fato aberto. Para ser aberto, aquele material – seja qual for o tipo de material: áudio, texto, vídeo, multimídia… – precisa ter uma licença de uso aberta. Claro que é a licença de direito autoral aberta. A gente tem hoje o Creative Commons, que também está aí ha mais de quase 20 anos, que é uma organização internacional em que quase todos os países, mais de 120 países, utilizam hoje porque a questão da reforma do direito autoral está muito estagnada em vários lugares. Aqui no Brasil, demais, porque as práticas sociais já mudaram. A gente já tem uma outra interface de acesso, de busca, de locomoção, de estudos. E a Lei de Direito Autoral é de 1998. É muito diferente de 2021. O contexto de prática social que a gente tem hoje infelizmente… A questão da reforma da Lei de Direito Autoral, ela estagnou, ela não está andando. Aqui no Brasil teve um movimento grande no começo dos anos 2000, mas isso não foi pra frente, é uma pena. Outra coisa importante: por que é que a gente fala bastante da educação e de direitos digitais? Porque a educação, de uma certa forma, ela fica fora desses debates que são pauta na sociedade. É como se não tivesse a ver. E tem tudo a ver falar em direito autoral no contexto digital se a gente quer levar o letramento digital aos nossos educadores, aos nossos estudantes. Se a gente for pensar, por exemplo, o Marco Civil da Internet: a área da educação não participou em nada do processo, das discussões. Hoje eu faço formação de professores e eu trago o Marco Civil, eu falo desde como funciona a internet; quando a gente manda um e-mail, qual é o processo; para onde vai esse dado que a gente está enviando? Os educadores ainda não sabem que a internet tem uma estrutura física. Quando a gente fala na ‘nuvem’, onde estão nossos dados? São invisíveis? Não, a nuvem é física, são cabos submarinos. Isso, em 2021, ainda era uma descoberta para nossos educadores e gestores públicos.
PRISCILA GONSALES: E outro aspecto da diferença entre gratuito e aberto, que é mais difícil de as entenderem, é que quando a gente acessa a plataforma gratuita, por exemplo, e a gente não paga com dinheiro, a gente está pagando com os nossos dados. Os nossos dados alimentam aquela plataforma que está sendo desenvolvida com algoritimos de inteligência artificial e vai melhorando o produto. Os nossos dados vão tornando aquela plataforma cada vez melhor. Nós estamos pagando, sim, com o ativo mais valioso da nossa sociedade hoje. Por isso que é fundamental a gente entender: que sociedade é essa que a gente tem hoje, que cultura digital nós temos hoje.
RUI DA SILVA: Então, é por isso que vocês tentam focar se no letramento e nos direitos digitais. Não é isso?
PRISCILA GONSALES: Exatamente.
ANDRESSA PELLANDA: E aí eu queria pegar um gancho do que você está falando, Priscila, pois você mencionou como é que a gente paga essas coisas com dados e não necessariamente com o nosso dinheiro. Aqui no Brasil, mas também no mundo, com as políticas emergenciais vieram à tona uma série de parcerias com grandes empresas de tecnologia para essas plataformas de educação remota, gerando uma série de questões polêmicas, discussões e efeitos disso. Você pode comentar para gente um pouquinho sobre essa questão, essas problemáticas, e também aproveitar para contar um pouco sobre esse projeto ‘Educação Vigiada’ que vocês fizeram.
PRISCILA GONSALES: Claro. Isso que a gente está vendo até hoje, vimos no começo da pandemia e agora se perpetuam essas parcerias grátis – grátis de novo, está pagando com os dados. E o que acontece, acho que tem vários fatores para a gente analisar. O primeiro deles é que a tecnologia sempre foi considerada uma mera ferramenta, o meio de ensino. A visão que os educadores e gestores educacionais têm da tecnologia é utilitária, é para ensino, é só para poder ser uma forma de ensinar. Então, não temos mais a possibilidade do presencial, que outras formas a gente pode usar para continuar ensinando, do mesmo jeito que a gente usava? Não teve uma visão crítica na mudança, na emergência, naquele desespero de continuar atendendo os alunos, óbvio. Mas isso remete ao passado em que também nunca se refletiu e se discutiu o que significa esse híbrido que agora está todo mundo falando. A gente fazia antes, ou experimentava antes possibilidades diferentes daquele que formato nada flexível – que não é educação aberta – de ter o professor ali transmitindo o conteúdo para uma classe e todo mundo olhando para a nunca, aquela imagem clássica que a gente tem. Isso é uma reflexão que não houve. Obviamente, pensar a tecnologia como um mero instrumento: esse é um primeiro ponto. O segundo ponto é o desconhecimento dos nossos gestores públicos, aqueles que estão diretamente envolvidos com o serviço de educação como um direito de conhecerem esse cenário que a gente está vivenciando, o cenário que nós temos hoje em que o grátis envolve um pagamento oculto. O grátis envolve dados dos nossos estudantes, dos nossos professores. O que é que essas empresas vão fazer com esses dados?
PRISCILA GONSALES: E o que a gente mapeou, tanto na Educação Vigiada, como via mapeamento de como estamos nos organizando para o atendimento remoto, foi que elas aceitaram os termos das empresas. Então, não é minha preocupação em termos de gestão pública aceitar os termos. Só que a gente não está pagando com dinheiro. Quer dizer, todo mundo é obrigado a aceitar o termo da empresa? E nós fizermos também uma análise, uma análise descritiva, do que está escrito nos termos de uso dos grandes pacotes de educação, que têm sido os mais usados: Google e Microsoft, os tais bons pacotes Education. E o que a gente constatou lá? Primeiro, que eles são uma tradução pura, não é nem uma versão ou uma adaptação da nossa legislação. Eles citam legislação da Califórnia… Isso já fere a própria atuação deles no país. Outra coisa que tinha lá: a responsabilidade é toda da instituição que assina o termo. Então a instituição é responsável para pegar todos os aceites e consentimentos dos pais. Qualquer problema de uso indevido a culpa é da instituição, a empresa se exime de tudo. E o terceiro ponto é que todos os aplicaivos que não estão no pacote Education, se o aluno usa por exemplo YouTube, Google Maps… Os dados vão ser usados comercialmente, sim. É isso. As gestões não sabem disso. E tem também uma subserviência – eu gosto de falar essa palavra, parece forte mas não vejo outra melhor – de achar que a Big Tech ou a Ed Tech ou a empresa externa sabe muito mais do que nós. Então vamos aceitar os termos dela. Ela ainda está dando de graça para nós. Eu acho que esse desconhecimento é muito sério, e nem acho que é má fé.
PRISCILA GONSALES: Eu acho que é um desconhecimento que acaba gerando um dano que pode levar a milhares de outras consequências. Com a LGPD agora, chegou um terceiro problema que eu vejo em todos esses anos acompanhando as gestões de educação, é que tem muita falta de diálogo entre as partes pedagógicas, técnicas e jurídicas, tanto que a gente criou um jogo, que chama Jogo da Política de Educação Aberta, que a gente usa nas formações para fazer um diagnóstico do grau de abertura de uma política ou de um programa. Para participar desse jogo, você precisa que essas três áreas juntas porque o jogo trabalha com esses três aspectos. Se eu tomo uma decisão pedagógica: o que isso impacta no técnico? A decisão pedagógica agora é o remoto, por exemplo. Para eu fazer o remoto eu vou precisar de uma plataforma de tecnologia. Bom, eu não tenho, onde eu vou achar? Quais são as opções? E não é isso que acontece. Acaba que o pedagógico decide tudo. A gente tem essa cultura de parceria empresarial, fundações, na educação com um todo e a gestão pedagógica decide sozinha, e diz para a técnica o que é que eles têm que fazer para poder acontecer naquele programa, naquele projeto. E o jurídico tem que balizar o que a parte pedagógica decidiu. Não existe uma harmonia de entendimento dos impactos de cada ação. A gente tem uma política muito top-down ainda, que é o gestor da pasta que decide tudo o que vai fazer de acordo com o repertório que ele tem, o grupo com o qual ele está acostumado a trabalhar, e todo mundo na gestão tem que fazer acontecer, tem que colocar aquilo em prática.
RUI DA SILVA: E agora, diante dessa perspectiva de como o mundo digital está entrando na educação brasileira, o que é que esta pandemia de Covid-19 e o encerramento das escolas… Como pode influenciar este fenômeno que nos descreve.
PRISCILA GONSALES: A pandemia exacerbou uma série de desigualdades que a gente já tinha. As me perguntam, essa semana mesmo teve um workshop internacional na Unicamp e os colegas britânicos acham que a questão da falta de acesso é na favela, é só na zona rural. E quando eu falo que não, nas cidades grandes também tem, nas capitais também tem, nós temos o problema de acesso. O problema de banda, porque o acesso, comprovadamente pelas pesquisas no Brasil, é pelo celular, as pessoas acessam a internet pelo celular e por pacote de dados. Se um pacote de dados acaba, a gente ainda tem uma coisa bem perversa que é o zero rating: são os acordos que as teles que a gente paga para ter o pacote de dados fazem com as empresas nas mídias sociais, por exemplo de Facebook e WhatsApp, e as pessoas continuam usando esses aplicativos mesmo se o pacote de dados acabou. Isso gera uma conveniência para a pessoa – inclusive isso não é permitido pelo Marco Civil. Acabou sendo o acordo que a gente não sabe direito como isso aconteceu, mas é fato que isso é uma prática. Isso acaba não só restringindo o direito de acesso à informação das pessoas como pode potencialmente proliferar por exemplo a desinformação.
PRISCILA GONSALES: Se a pessoa não consegue clicar no link que ela recebe na mensagem, ela acredita ou confia ou concorda com o título e ela começa a disseminar aquilo sem ter lido – e às vezes a notícia é antiga, para dizer a coisa mais básica que pode acontecer. Essa é uma questão: o acesso, a forma como a política está sendo organizada, apesar de a gente ter o Marco Civil, e o Marco Civil está vivendo o ataques o tempo todo por meio de decretos, o que é pior ainda. A gente tem um governo de decretos, uma coisa indescritível que a gente está vivendo hoje. E a gente tem no Brasil 4,8 milhões de crianças sem acesso à internet, sem acesso à Internet nos lares. As crianças que têm internet muitas vezes têm que compartilhar o celular, o computador. Essas questões vieram totalmente à tona agora com a pandemia, isso ficou ainda mais acirrado, esses contrastes, essas exclusões, algo que vem da década de 90 quando se privatizou as telecomunicações e o FUST não foi devidamente usado como deveria ter sido. A gente está vendo as consequências de uma gestão não só educacional, mas uma gestão de política nacional que a gente não teve.
ANDRESSA PELLANDA: É interessante ver como o impactos da pandemia já vinham de antes, mas se aprofundaram. Eu tenho falado que se subiu à superfície, agora mais pessoas conseguem ver o que a gente já avisava antes. Mas tem outra questão que a gente queria que você discutisse um pouco com a gente sobre a educação à distância e esse modelo e o que a pandemia pode trazer em relação a isso também. A gente tem um caso que, recentemente, o candidato a prefeito de Nova Iorque Eric Adams referiu que: “Ao utilizar as novas tecnologias de aprendizagem à distância, não precisa que as crianças da escola estejam num edifício escolar com vários professores – é exatamente o oposto. (…) Poderia ter um professor muito bom para ensinar 300-400 alunos que têm dificuldades.” O que acha desta perspectiva do uso de ensino a distância?
PRISCILA GONSALES: Eu acho que essa é uma visão obtusa. A educação não é o ensino, é muito mais que o ensinar conteúdos curriculares. Se a pessoa acredita que o avanço na educação, seja no ambiente escolar, seja nos países que têm o homeschooling, é simplesmente passar conteúdo… É uma visão obtusa da educação porque tem a experiência. Imagine o Metropolitan Museum resolver tirar todas as obras de dentro do espaço e pôr na rua. Não vai ser a mesma coisa. A experiência de entrar no museu é única. A experiencia de você ter as relações ou aprender a conviver na escola não dá para simplesmente substituir. É como se a escola fosse reduzida só a transmissão de conteúdo. É uma coisa tão chocante – declarações como essa – porque a gente discute isso há 30 anos, que a escola não é só transmissão. Como se um professor incrível viesse, fizesse uma aula online, e todo aprendesse porque é só para isso que a escola serve. Eu acho muito ruim esse tipo de visão porque desvaloriza o processo educativo e o processo de ecossistema da escola, que é muito difícil, do dia a dia, os educadores dão um duro danado, os gestores, a parte administrativa. Todos nós que tivemos experiências, por mais que a gente tenha críticas, e é bom que a gente tenha, faz parte, nós temos uma visão de tudo o que foi bacana de ter vivenciado na escola. E, num país como o Brasil, o espaço da escola é fundamental para a gente pensar… “Agora tudo é online”, essa é uma visão quem não conhece a nossa realidade. E me admira também que mesmo fora, nos Estados Unidos, a gente tenha esse tipo de coisa, com essa declaração.
RUI DA SILVA: E por que que acha que esta perspectiva, e esse tipo de visão muito simplista, [se liga sobre com a ideia de] como as tecnologias podem resolver os nossos problemas.
PRISCILA GONSALES: É isso mesmo, Rui, é uma visão sobre o solucionismo tecnológico, como diz o Morozov, que é o pesquisador da atualidade que vem fazendo muitas críticas em relação ao Vale do Silício. O jeito de pensar do empreendedorismo digital que vai resolver tudo. Então o que nós precisamos mesmo é ter toda a tecnologia à mão. Nós precisamos formar esses jovens para serem trabalhadores dessas empresas de tecnologia e para isso é essa educação que a gente quer, a gente não tem que pensar naquilo que a gente precisa produzir no país, como pesquisa, como tecnologia mesmo, nas escolas – e não só escolas, viu gente. É bom frisar que o Educação Vigiada mostrou que as universidades públicas também elas estão deixando de investir internamente em toda parte de TI, por exemplo, porque: para que elas vão investir se elas estão usando tudo externo? Então a gente vai virando a colônia digital, [termo] que outros pesquisadores que usam, o Nick Couldry, o Ulises Mejias, eles estão trabalhando nessa perspectiva. É um novo colonialismo digital que está surgindo. E a gente está participando disso achando que é assim mesmo, porque é bacana só servir às empresas Big Techs e quem produz tecnologia. Tem uma outra coisa. Além do ensino híbrido, que virou modinha agora, é a tal da educação 4.0, 5.0… Já vi até 7.0, gente. Aí eu falo assim, toda vez eu falo isso: a gente está transformando a educação num carro, é isso?
PRISCILA GONSALES: Cada ano a gente lança um modelo e a gente quer vender esse modelo, todo mundo tem que fazer igual, para ter concorrência. É nisso que a gente está transformando a nossa educação, vai virando um produto obsoleto. Mas o que me deixa… Vou dizer, assim, até otimista é que quando eu trago essas abordagens sobre ações as pessoas de repente falam: “Nossa, eu não tinha pensado nisso”. Por quê?. Porque está todo mundo naquele fazer, fazer, fazer, cumprir, cumprir, cumprir, cumprir, e não pensa nessas possibilidades, nessas questões todas aí que a gente tem e que tem a ver com educação política. Outro dia a gente estava conversando também, anteontem: a história de mais um agressor de mulheres que foi denunciado e que teve seguidores e curtidas aumentadas e aí uma determinada organização que trabalha com educação midiática postou que era um absurdo, que as pessoas não podem curtir, que não é possível fazer isso. Mas, de alguma forma, isso despolitiza porque você não pode atribuir o problema unicamente a uma escolha individual. Cadê a responsabilidade da imprensa, cadê a responsabilidade das plataformas? Porque é isso está acontecendo. O contexto é um pouco mais complexo do que a gente achar que é só uma decisão [individual]. Ah, vai ser legal. Use a internet que tudo está bem.
ANDRESSA PELLANDA: É muito interessante perceber, eu estava aqui pensando… Em 2017, fiz um trabalho lá em Nova York e eu estive lá quando apresentaram a robô Sofia pela primeira vez para o mundo. Vários países assistindo e eu fui lá olhar de cantinho como é que era. E, claro, é outra discussão sobre inteligência artificial, etc. Mas eu lembro que na mesa tinha uma pessoa que discutia a questão crítica de ter um robô de inteligência artificial, enfim, e o resto eram todas representações de empresas que ajudaram a promover e desenvolver, financiar, a robô Sofia. As perguntas que foram feitas por diversos países, especialmente os países que a gente chama de Sul-Global eram quando que eles poderiam ter acesso àquele robô ou a mais crítica que eu ouvi era como as empresas do Vale do Silício iam contratar pessoas de seus países para trabalhar lá no Vale do Silício. Então eu com o olho cada vez mais arregalado, eu que adoro filmes distópicos, pensando como ia ser o futuro com isso funcionando daquele jeito. E ao mesmo tempo, nessa conversa, eu tive esses dias discutindo educação indígena e quilombola. Para quem não é do Brasil, quilombola é um termo utilizado para os povos que são descendentes de escravos, e que se aquilombam, ficam nas suas comunidades mantendo a cultura e a tradição do seu povo. E a gente estava discutindo a educação quilombola indígena e nas resoluções do Conselho Nacional de Educação no Brasil que datam de 2002, 2006 e 2008 – que foi uma época de muito avanço nas nossas políticas educacionais aqui -, um dos termos que eles utilizam para o objetivo da educação indígena quilombola nas resoluções respectivas é o bem viver. Estava aqui raciocinando, pensando sobre toda essa questão da tecnologia, para que ela serve… E tem muita relação com essa questão do direito do bem viver. Estou falando disso para te perguntar: qual conselho você daria a quem está na linha de frente da educação, que quer aprender a usar essas tecnologias digitais de forma aberta e respeitando, claro, a garantia do direito à educação? E, por que não, desse bem viver…
PRISCILA GONSALES: Inclusive, esse bem viver, tem um teórico incrível que acabou de fazer 100 anos, que é Edgar Morin, ele traduzia como que o pensamento complexo em que nós humanos somos parte da natureza – não tem uma divisão do homem sempre explorar a natureza. Temos que perceber esse ecossistema que a gente faz parte, e ele fala do bem viver. Como que a gente educa para o bem viver? O que seria esse bem viver? O quanto a gente está semeando? Isso tem a ver com a convivência, tem a ver com o próprio autoconhecimento, coisas que de uma certa forma se traduziram nas competências socioemocionais – mas por que, gente, porque a OCDE resolveu falar disso, porque muito antes a gente já falava, mas só quando a OCDE fala é que a educação resolve olhar para isso porque: “Nossa, o mercado de trabalho!” São coisas que a gente precisa sempre lembrar. Por que esse tema vem agora? Veio de agora, não veio. Inclusive as comunidades, elas são uma grande fonte inspiradora. No começo dos anos 2010, tinha um projeto muito legal, o Índio Educa, que era aberto, em licença aberta. Eles fizeram uma plataforma em que os estudantes criavam diversos materiais para poder compartilhar sua própria cultura. Isso durou até que eles não tiveram mais financiamento e não conseguiram dar andamento. Uma outra coisa muito triste que a gente tem no Brasil é essa descontinuidade dos apoios dos projetos que são comunitários, que têm a ver com o contexto… E isso está muito forte hoje, a gente quase não vê ações vindo. As comunidades são verdadeiras resistências que estão aí hoje, tentando fazer ao mesmo tempo diferente mas também se aproximar, não é dizer que agora agora vamos voltar ao que éramos.
PRISCILA GONSALES: Não. Eu acho que a gente não pode nem renegar o que a gente tem do passado, de coisas boas, e também não posso deixar de olhar para o que está por vir. O que é essa IA, esse algoritmo da IA? A gente tem que olhar para isso. Mas como que a gente faz essa combinação e esse equilíbrio? Eu acho que eu posso resumir o meu conselho numa frase: não seja dependente. E isso vale para todos. Professores: “Ah, porque a rede, a secretaria, está obrigando a usar o Google Education”. Você pode buscar com seus colegas conhecer outras possibilidades. Quem sabe, na sua diretoria de ensino, levar esse questionamento, falar sobre isso. A gente também se acostuma com a política top-down, porque ela facilita as coisas, alguém tomando a decisão pela gente. Então tem um fazer aí que é procurar saber mais, procurar informações. São materiais abertos, de fato, que são gratuitos. “Onde que eu acho alternativas às grandes ferramentas das Big Techs?” Pensando nisso, a gente sabe que um dos dramas é encontrar esses materiais, a gente vem desenvolvendo desde 2017 uma série de ações e projetos. Por quê? A gente faz isso em conjunto com ações de advocacy e formação de gestores para que eles conheçam o que existe. Então, a gente tem, por exemplo, o relia.org.br, um referatório de REA, e a gente usa esse referatório nos cursos que a gente faz, os professores vão lá e pesquisam os REA, deixam um comentário para saber o que eles acharam. É para fomentar essa ideia de que não tá pronta, a plataforma não é perfeita, tudo o que está lá dentro não é incrível. A gente está colocando, na medida do possível o que está sendo compartilhado na rede de uma maneira aberta, com a licença aberta. Mas a gente quer que isso seja de fato colaborativo. E a gente vê que isso é um desafio. As pessoas querem as coisas prontas e perfeitas, arrumadinhas. A prática de abertura… Se tem uma licença aberta, significa justamente que você pode melhorar. Porque a gente tem a cultura da editora, do livro didático pronto… “Como pode ter erro no livro didático?” Vamos consertar o erro, conversar com a classe, ver o erro? A gente atribui sempre algo que está fora da gente. Isso é muito, muito comum na educação. Outra coisa que a gente fez foi o Escolha Livre, escolhalivre.org.br, que a gente lançou no ano passado. Tem ferramentas abertas e livres para videoconferência, para escrita colaborativa, para gravação de vídeos… Uma série de ferramentas abertas. E não é para escolha livre individual, é bom frisar, é mais uma chamada para ação. Porque se a gente não tiver um lugar onde mostrar que existe fica muito difícil também a gente convencer e explicar para o gestor público que é possível, sim, criar uma rede própria, por exemplo. Como que eu tenho uma rede independente para mandar todos os meus servidores para fora do Brasil se o meu servidor de e-mails, de documentos, está fora do Brasil? Como eu sei que aquilo está sobre qual legislação? Eu tenho certeza que eu protegido aqui por conta da legislação deles? Está de fato combinada o que a gente precisa ter aqui, enfim.
PRISCILA GONSALES: A não gente sabe. E essa infraestrutura tecnológica, essa infraestrutura de rede é importante também quando a gente vai pensar uma política pública. Não dá mais para dissociar: tudo o que a gente vai fazer hoje, tem a ver com o digital. Vai ter uma plataforma, vai ter um livro digital, e isso vai ficar em algum lugar. Ele vai para algum um servidor, aonde está esse servidor, quem fornece isso? Quanto isso vai custar? É de graça? Mas como assim é de graça? Não é possível que serviços tão robustos estejam sendo dados de graça. A gente fez também um mapa de serviços, tentando mapear comunidades, associações e empresas que ofertam serviços. Também era uma outra demanda que faziam para a gente. “Ah, a gente não sabe onde encontrar, para quem a gente vai recorrer?”. Já tem empresas e associações de vários lugares do Brasil. A gente está fazendo uma nova divulgação. Agora, tem um lado que eu ando pensando muito nisso. Todo esse movimento do software livre que a gente teve no final dos anos 90, começo dos anos 2000, foi muito legal e ainda reverbera até hoje… De alguma forma, a gente não conseguiu fazer isso se disseminar. Tornar isso mais conhecido pela educação, pelos gestores educacionais, pelos legisladores. Hoje a gente mexeu no próprio projeto REA, que era de 2011. A gente mexeu, conseguiu mexer, ele foi aprovado em duas comissões, mas a gente queria mexer mais ainda para poder entrar mais nos aspectos de direitos digitais, que a gente sabe que é o grande drama, hoje, das gestões públicas.
RUI DA SILVA: Priscila Gonsales, muito obrigado por ter vindo ao Eduquê.
PRISCILA GONSALES: Obrigada você, Andressa e Rui pelo convite. Vida longa ao Eduquê!
ANDRESSA PELLANDA: Vida longa a REA!
RUI DA SILVA: A transcrição desse episódio está disponível no site campanha.org.br e, traduzida para o inglês, no site freshedpodcast.com. Algumas das referências citadas pela Priscila podem ser encontradas no site do Instituto Educadigital (educadigital.org.br)
ANDRESSA PELLANDA: As opiniões expressas pelo programa correspondem apenas às dos apresentadores e entrevistados – e não necessariamente representam posições institucionais de FreshEd e Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
RUI DA SILVA: Se você gostou do Eduquê, por favor faça a sua avaliação! Marque as 5 estrelinhas para o Eduquê no Apple Podcasts ou na sua plataforma de podcast favorita. Isso nos ajuda muito, mesmo.
ANDRESSA PELLANDA: O Eduquê tem produção executiva de Renan Simão e Will Brehm. Mariana Casellato, José Leite Neto e Rui da Silva são produtores. A música original do Eduquê é de Joseph Minadeo, do Pattern Based Music.
RUI DA SILVA: O Eduquê é financiado pelo Instituto de Educação da University College London, pela Norrag – que é a Rede de Políticas Internacionais e Cooperação em Educação e Treinamento, e por ouvintes como você.
ANDRESSA PELLANDA: Faça a sua colaboração em freshedpodcast.com/donate ou em direitoaeducacao.colabore.org. Obrigada pela atenção. Aqui quem fala é Andressa Pellanda, coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, do Brasil.
RUI DA SILVA: Rui da Silva, pesquisador do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, de Portugal. Estaremos de volta no mês que vem. Até lá!
Translate this transcript into any language. Before you do, we’d love to know a little about who this is for — it helps us understand which language communities find FreshEd useful.
Translations are limited to 10 per day per visitor to keep this free for everyone.
Have any useful resources related to this show? Please send them to info@freshedpodcast.com



