José Pacheco
How does the Open Learning School pedagogy add to the right to education?
Open Learning school is a prototype for a learning community, bringing to everyday practice several theoretical proposals, among them those of Paulo Freire.
Youth protagonism is a key expression usually linked to innovation projects in education. Educator José Pacheco warns that innovation projects must be replicable, connected to public education, and ensure the right to education.
Learn how the Open Learning School pedagogy works and what are its impacts in Brazil and Portugal with the Portuguese practitioner. Pacheco is a Pedagogue and author of several books and articles on education and a great promoter of democratic school management. He is also the founder of projects such as Escola da Ponte, Escola Projeto Âncora, and, more recently, the Open Learning School.
Escola aberta é um protótipo para uma comunidade de aprendizagem, sendo ela a concretização de várias propostas teóricas, entre elas a de Paulo Freire.
Protagonismo juvenil é uma palavras-chave geralmente ligadas a projetos de inovação em educação. O educador José Pacheco alerta que projetos de inovação precisam ser replicáveis, ligados à educação pública e garantir o direito à educação.
Conheça como a pedagogia da Escola Aberta funciona e seus impactos no Brasil e em Portugal com o educador José Pacheco. Pedagogo, Pacheco é autor de diversos livros e artigos sobre educação e um grande dinamizador da gestão democrática. É também fundador de projetos como a Escola da Ponte, Escola Projeto Âncora e, mais recentemente, da Open Learning School.
RUI DA SILVA: José Pacheco seja bem-vindo ao Eduquê.
JOSÉ PACHECO: Obrigado!
RUI DA SILVA: Sendo o promotor da pedagogia da Escola Aberta… Para os nossos ouvintes que não estão formalizados sobre este conceito… Pode nos dizer em que consiste então esta pedagogia da Escola Aberta?
JOSÉ PACHECO: Não será bem uma pedagogia, mas eu entendo que tudo isso é mais uma antropologia. O pedagogo é aquele que leva a criança para dentro de uma escola breve. O antropólogo a antropologia não considera apenas o paidós, criança, considera o antropos, o homem. Então, a escola aberta é uma derivação de uma outra escola, chamada Escola do Projeto Âncora, onde, pela primeira vez no mundo, se passou do paradigma da aprendizagem para o paradigma da comunicação. O que é isso? Estamos lá há 46 anos, muito antes de ter nascido. Eu estive ligado a um projeto chamado Escola da Ponte. Foi na escola do Ponte que, pela primeira vez no mundo da educação, se passou do centro do professor para o centro novo e o aluno que concebe a pesquisa, produz conhecimento, e a partir de hoje, as escolas funcionam quase todas no modelo visto no atual modelo que vem da Prússia Militar. Por isso é que tem ‘vai para ali’, ‘vai para lá’, tem as fileiras porque a Prússia precisava de jovens para o exército. Então, esse modelo institucionalista, esse paradigma da instrução, vem também da primeira revolução industrial do século XIX. Por isso, ele tem padronização do tema. A era industrial. A primeira indústria… Quando a escola da Ponte concebe um outro tipo de organização que é esse campo, falei baseado no paradigma da aprendizagem. Já leva meio século de atraso, porque esse paradigma foi fundado por pessoas como Maria Montessori e Claparède, John Dewey, nos anos da escola de Waldorf, o Frei Neno, da escola moderna, toda essa gente. E depois, ainda por cima, melhorado com a chamada psicologia da ação da escola: Vygotsky Piaget, essa gente toda.
JOSÉ PACHECO: Quer dizer que, sendo o aluno o centro, é aquilo que se diz por aí o protagonismo juvenil, o empreendedorismo, a autonomia do aluno… É tudo treta, porque nada disso acontece. E quando eu escuto falar de metodologia ativa, ainda pior, porque não existem. Quando escuto falar de comunidade de aprendizagem, não existe. E então a escola aberta é uma iniciativa filantrópica, mas é ao mesmo tempo uma escola pública, porque escola pública é aquela que a todos acolhem e a todos dá direito à educação. E é isso que o modelo de instrução não consegue. A escola aberta é resultante do fecho da escola do Projeto Âncora porque transitaram por ela a maior parte dos professores no projeto. E lá se reiniciou um caminho para práticas que não são apenas o paradigma da aprendizagem, mas também do paradigma da comunicação. Nós estamos no século XXI, com criança do século XXI, professor século XXI, no século XIX, nas escolas comuns, na escola do Projeto Pilar, na Escola Aberta de São Paulo, com novo patamar… O que acontece é que você trabalha com o centro da relação, na relação entre sujeito da aprendizagem e o vínculo que ele estabelece com o objeto de estudo e com tudo. A comunidade de aprendizagem… Comunidade aprendizagem, que está a gerar se na escola aberta, não é mais do que isto a concretização de várias propostas teóricas, das quais, por exemplo Sema do Papert e de Paulo Freire, Agostinho da Silva, Lauro de Oliveira Lima e muitos mais e acima, Castells, etc… E que concebe a aprendizagem como estabelecida no contexto de um território que é simultaneamente físico e psicológico, que é o espaço comum, que partilha a mesma visão do mundo e tem valores e princípios coincidentes que pode acontecer fisicamente ou na Internet, ou nas duas simultaneamente. Que parte das cidades desejos, sonhos locais que aproveita as tecnologias sociais e os saberes locais e que produz conhecimento para uma vida sustentável cidadã. E isto, no fundo, é aquilo que o Ramón Flecha propõe também, mas não do modo como é proposto. É algo que se pode chamar inovação, porque a inovação obedece a cinco critérios. O primeiro, tem que ser novo e lógico. Se é inovador, tem que ser inédito. Tem que ter sustentabilidade na lei, nas ciências e financeiro. Tem que ser replicável. Não pode ser um projeto assim…Para ser replicável tem que ser distinto e não pode parar de se transformar, ser inovação. E finalmente, ele tem de ser útil. Tem de garantir o direito à educação a todos, coisa que está na Constituição da República e na Constituição da Federação Brasileira, e que a escola que temos não cumpre. Olhe para os centros de estudo, centros de explicações, reprovações, analfabetismo, tudo isso que está. Então a Escola Aberta é um protótipo daquilo que se pode chamar comunidade aprendizagem.
RUI DA SILVA: Enfim, muito interessante esta perspectiva que nos dá, que nos traz também essa passagem da instrução para a aprendizagem e também para um paradigma da comunicação. E pode nos dar exemplos concretos… O que é que a experiência de de um aluno num modelo destes?
JOSÉ PACHECO: Não é um trabalho de comunidade? Nós temos três dimensões curriculares. Eu vou tentar não utilizar jornal científico ou falar de uma forma, enfim, para todo o mundo. Toda a gente entende o currículo da subjetividade, que é o público que corresponde àquilo que é o talento de cada qual. Ou seja, nós temos que não preparar uma planificação de aula. Nós temos é de ensinar o outro a planificar a sua vida, a saber gerir um projeto de vida. Essas de tempos e espaços do curso, saber distinguir uma notícia falsa de uma verdadeira. Tem que saber estar com os outros, trabalhar em equipa, tem que saber participar. E tudo isso é chamado para o currículo da subjetividade. Cada um, cada ser humano, é um irrepetível, dotado de determinado estilo de inteligência, predominando um ritmo próprio. Não pode ser tratado como um todo, como nas aulas acontece. E então esse ser humano tem talentos que ele tem direito a desenvolver. E as nossas escolas? Infelizmente, as salas de aulas são cemitérios de talentos. Nós temos o público de comunidade que paga necessidades em funções de uma comunidade e entendendo a sustentabilidade da própria comunidade. Não gosto muito de falar desse assunto. Digamos que por aqui… E há o chamado currículo planetário, de consciência planetária. Que parte de dificuldades, problemas de um universo de problemas que tanto acontecem nos Estados Unidos como na Rússia, na Ucrânia e em outro lugar qualquer? Eu vou dar um exemplo, já que perguntas, como é que os alunos se manifestam nessas três dimensões? Vamos começar pela dimensão da consciência planetária.
JOSÉ PACHECO: Temos uma menina de nove anos, chega à escola, gostava de trabalho de graça, voluntário em qualquer lugar e ela me encontra. Eu pergunto: o que é que ela quer saber? E ela diz que não quer ser nada, mas está muito interessada em ser cientista. Então eu perguntei o que quer ser? Ela quer ser cientista? Não. Perguntei quando for grande? Quer saber quantos dias a criança quer chegar? Quando for grande? Isso é um xingamento. Então ela diz que quer ser cientista. Ela diz-me porque é que quer ser cientista. Ela diz-me que leu algures um texto da NASA e ela disse-me que ela queria ir ao espaço. Pois. Diz lá que a NASA está à procura de um planeta para onde o ser humano possa ir quando não for possível viver na Terra. Ela diz: Eu quero viver na Terra, mas também quero saber se é possível viver num outro planeta. Ela começou o estudo da consciência planetária neste objetivo de saber se é possível morar num outro planeta e se é possível o ser humano conseguir estar na Terra. E, aos 13 anos, foi para a Nasa, para Washington, currículo da comunidade, a menina numa favela. Pergunto: O que é que tu queres fazer? Nada. Você não é o meu pai. O que é que tu queres ser? Uma coisa que ajuda à minha comunidade.
JOSÉ PACHECO: O que repete? Porque por falar sobre a minha comunidade. Porque tenho orgulho no nariz e no meu cabelo negro. Quer ser rapper? Quero. Eu posso te ajudar a ser rapper. Ela olhou para mim como quem olha como um extraterrestre. O tio é mesmo professor? Eu sou e quero ajudar a ser rapper também. Então, fizemos um roteiro de estudo do currículo de comunidade para que ela funcione. E para ela, criou uma microempresa de produção de rap, associou-se com seus amigos no artesanato, e hoje, ou melhor, aos nove anos ela começou um projeto. Aos 13, foi participar na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Ao lado da Karol Conká e hoje é uma das maiores rappers do Brasil. É a MC Sofia, que esteve ontem no Rio Grande do Sul a cantar para 10.000 pessoas. Projeto de vida em comunidade. E, finalmente, o cubículo da subjetividade. E vou usar um exemplo radical e do ponto que os dois anteriores falaram no Brasil, vou falar de Portugal. E a escola da Ponte é muito mal vista em Portugal, mas é muito conhecida no estrangeiro. Demasiado. Então, chega um jovem, nove anos. Eu escolhi os nove anos que. Com Sìndrome de Down…
JOSÉ PACHECO: Chegou essa criança e eu perguntei: O que é que tu quer ser? Ele disse: Eu posso dizer? Quando eu pergunto a uma criança, ela pergunta se pode dizer. Por quê? Porque já destruíram a curiosidade, já o proibiram. Pode dizer. Ele quer ser guarda-redes. Uma guarda vindo de ele já disse a muita gente, mas no meio deles, tinha medo de falar. Então vou ler o relatório. O relatório dizia que ele não sabia ler nem o nome dele, nem o nome dele, identificava André Mesquita. Porque depois dizia que não contava nem até cinco e que ele nunca iria aprender a ler. Recomendava que ensinasse a apertar os atacadores, cadarço do tênis, camiseta… Então eu atirei aquilo fora porque não quis me contar mais um relatório. Mais uma besteira do princípio ao fim. Eu perguntei ao jovem É isso que ele quer ser, isso, eu quero ser um guarda-redes de futebol. Então, fizemos o projeto: ele rapidamente fez o ensino básico, fez o técnico profissional. E quando Portugal ganhou o Campeonato Europeu de Futebol de Salão de 2018, o guarda-redes da seleção nacional era o André Mesquita. É medalha de ouro, com certeza. Dá para entender o que é o trabalho em comunidade, escolas de excelência aqui dentro, com inclusão social.
RUI DA SILVA: Muito obrigado por nos dar esta perspectiva e estes exemplos. Muito interessante, porque agora, quando estava a falar desta abordagem deste modelo, eu lembro que recentemente estava a ler o livro lançado recentemente. São as memórias do economista e filósofo Amartya Sen, que é indiano e ele falava da experiência dele na escola e não sei se a pronunciar corretamente. Mas era Santini, uma escola fundada por um filósofo indiano que se chamava Tagore, em 1901, e o que ele descreve da sua experiência escolar nesta escola. É uma coisa muito similar ao que nos estava a dizer. Não é esta questão dos projetos e de não haver, não é, o que não está definido o currículo, é ele, ele existe, mas não está visível. E agora, numa entrevista sua recente a um podcast português, é a certa altura e acho que esta é esta ideia… Acho que é só mesmo para classificar… Fica a ideia que considera esta Open Learning School, a única escola do século XXI? Sim, pode nos resumir porque é a única escola do século XXI?
JOSÉ PACHECO: Digamos que é um exagero. Mas a propósito da escola que me ensinaram na Índia, Rabindranath Tagore é um dos inspiradores da Escola da Ponte. Por outro, Krishnamurti quer mais, te digo, eu estive na Índia. Eu tentei juntar a tradição oriental com a tradição ocidental. Não eu, mas a minha equipa, ninguém faz nada sozinho. A Escola Aberta de São Paulo é uma escola do século XXI e eu vim agora do projeto, onde sinto que vão aparecendo outras escolas. Mas neste momento o panorama é mais avançado e que está mais… Eu não gosto de falar disso… Mas posso dizer que não há no mundo escola mais avançada em termos teóricos e práticos. Porque é que a Escola Aberta de São Paulo? Por quê? A escola aberta tem um território físico onde vai desenvolver o seu projeto, a única diferença entre elas são o mais avançado que se pode imaginar em educação. Ela já faz exatamente o paradigma da aprendizagem da comunicação, sem prescindir de alguns dos contributos do paradigma da instrução. A aula vai haver sempre. Quando o discípulo está pronto, o mestre surge na aula, mas não como agora, porque essa gente que dá aulas, que não são professores, são ‘dadores de aula’ e pensam que ensinam. Mentira, não se aprende nada, não resolve nada. Ouviste bem? Na escola aberta aprende-se. O que? Se quiser, eu explico.
RUI DA SILVA: Claro que sim. Claro que sim e muito claro que estamos aqui para ouvi-lo e para nos explicar de facto, para percebermos melhor este conceito, esta ideia da passagem para o paradigma da aprendizagem da comunicação.
JOSÉ PACHECO: Aquilo que acontece nas escolas que têm sala de aula ou turma, então, não tem fundamento científico. Primeiro. Segundo: está fora da lei, não cumpre a Constituição. Não cumpre a lei da República. Isto o que falo parte de uma premissa diferente. Quando eu dava aula, me orgulho de trabalhar dando aula, era o que eu sabia fazer. Eu preparava projetos para meus alunos, uma boa diversão, materiais ótimos e levava projetos para eles. Quando passei para a Escola Aberta, eu passei a construir projetos comuns e não preparar para… Ninguém prepara para cidadania, mas na cidadania. Depois que eu fazia a minha projeção de aula. Que que eu fiz? Deixei de fazer, aquilo que acabei de falar… E comecei a estudar o outro, a planejar a sua vida. Como? Preparando o texto de estudo desses três paradigmas. O que acontece a partir de uma necessidade, de um desejo, um problema. Eu sigo antes do sujeito, vai para a técnica, isso já existe há dezenas de anos. E o tutorando, o sujeito da aprendizagem… Comigo, o professor é indispensável na figura do tutor, lógico, comigo e com outros elementos de equipe. Ele vai partir de uma necessidade de interrogação e vai procurar informação que responda a essa pergunta. Depois nós teremos de ensinar a pesquisa que os professores não estão. Aliás, é uma coisa ainda pior. Quando eu pergunto o que é que está no projeto educativo da escola? Ninguém sabe, ninguém leu. É uma loucura. Vale a pergunta o que é que está no sistema educativo? Ninguém leu. Pelo menos acho que eu já perguntei, não sabe? E então o sujeito? A aprendizagem parte para o desenvolvimento da pesquisa, mas antes não é dizer para ele pesquisar, porque se o jovem cai na internet, perde-se com a quantidade de informação gasta.
JOSÉ PACHECO: O que nós temos de fazer? Ensiná-lo a pesquisar. O que é isso? Saber selecionar a informação, selecionar a informação pertinente. Saber analisar essa informação e ver se aquilo que ele precisa para responder a pergunta inicial. Mas tem que saber criticar ou ser senso crítico. Depois tem que saber comparar diferentes informações e ao comparar, sintetizar a informação de palavras suas que não são um simples copy paste. Depois tem que avaliar a informação produzida, ou seja, verificar se a partir da informação, se ele produziu conhecimento. Porque currículo não é consumo de informação, currículo é produção de conhecimento, produção, e quando ele produz conhecimento ele começa a ver, coloca numa ação, partilha. Isso é avaliação, não é fazer um teste. Uma habilidade que prevê tempo é confiar na memória de curto prazo. Se fizer o mesmo teste da passado, já não responde porque já não sabe o que importa mesmo. Então, o que acontece é que a partir de uma necessidade, o sujeito da aprendizagem constrói conhecimento e ao pegar nesse conhecimento e colocar uma ação, compartilhá-lo, ele desenvolve competências. Ou seja, nós desenvolvemos nela a metacognição, pensar sem pensar. E então, com a posse desse desenvolvimento, processo complexo de pensamento, ele vai poder ser aquilo que é autônomo. Não é um mestre sozinho. A autonomia é exercida em relação ao outro. É um princípio velho, neoliberal, que diz que a minha liberdade termina onde começa a liberdade. Outra treta. A minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro e isso se chama de solidariedade, cooperação, humanização da educação. E isso é muito mais do que isso. Eu vou exagerar na resposta.
RUI DA SILVA: Muito interessante, com um aspecto que nos preocupando também em nós. É quando, quando pensamos nos convidados e pensando no nosso programa e falou aqui várias várias questões relacionadas, como falou em copy paste, falou na questão do foco nos testes que testam a memória a curto prazo. É neste ideário neoliberal que cada vez mais nós notamos que está a dar educação. E a próxima pergunta está um pouco relacionada com isso. Pelo que se consegue perceber, não é tirando a Escola da Ponte que me parece, vai me corrigir, se tiver… Irá haver uma escola pública em Portugal. Os outros projetos que nos descreve são projetos. De certa forma estão com vocês, com atores não estatais. Nós, atores, de certa forma, podemos ser considerados privados e estamos a assistir que, por exemplo, projetos pouco progressistas e humanistas estão a ser promovidos na educação pública, por exemplo, no Brasil, por várias fundações think tanks. E assistimos que projetos como este que nos descreve, mais humanistas e que nos levam ao paradigma da aprendizagem da comunicação e não para a memorização. Nessa preparação para os testes ou iniciativas de caráter privado e não tanto numa educação pública para todos, consegue nos falar desta dualidade? E o que é que lhe parece? Porque é que está a acontecer assim?
JOSÉ PACHECO: Eu sou professor de escola pública há mais de meio século e me orgulho de ser. Mas fazer projetos no quadro da escola pública é um processo de sofrimento e resiliência, porque o Ministério da Educação descobriu uma cambada de burocratas que não sabem o que fazem, mas que têm uma hierarquia autoritária que impõe o papel, que é muito mais fácil no papel, muito mais fácil. Mas posso dizer que a maioria dos projetos que estou acompanhando são de escola pública e a escola continua sendo escola. Como a diferença é que a escola não tem diretor e as escolas que estou a acompanhar agora vão deixar de ter diretor e são assim aquelas não serão autônomas porque a escola que tem diretor, o diretor tem de ver uma audiência hierárquica. O ministro manda e ele tem de obedecer, mesmo que não concorde. Onde é que está a autonomia? Onde é que está a dignidade de alguém que não concorda, mas tem que cumprir o que o povo quer? É um modelo autoritário, verticalizado e ainda por cima moral e intelectualmente corrupto e moralmente corrupto, porque ele provoca abandono intelectual, porque não garante a todos o direito à educação? Não garante. Já para não falar onde é que estão os centros de explicações estão aí. Onde é que está daí tudo? O burnout dos professores. O suicídio juvenil é uma coisa horrorosa. O que esse modelo por aí produz na sala de aula?
JOSÉ PACHECO: Então, é corrupto. Por quê? Porque, neste momento nós temos uma situação bem peculiar. Temos muita gente formada em ciências da educação, mas que é da Ciência da Educação, e conversa, porque na prática está a fazer o mesmo que se fazia no século XIX. Escrevem livros sobre o paradigma da comunicação e fazem algo centrado. Não dá para entender o que é intelectualmente corrupto e moralmente corrupto. Não compra bem e continua a não cumprir. É como se fosse um médico: sabia que no modo como trabalhava matava metades, e continuava a matar. Ética. E então, quando eu falo realmente do que é intelectualmente corrupto, eu dou um exemplo daquilo que dá para falar do teste. O teste, avaliação, está na Lei de Bases do Sistema Educativo. Ela tem que ser, está na lei brasileira também. Tem que ser formativa, contínua sistema. É isso bastante que um teste não é formativo, é excludente, não é contínuo, é periódico e não é sistemático. Ela incide na disciplina numa parcela de matéria. Então, através da avaliação, a escola está fora da lei. E quando um professor me diz que dá três testes devido as notas, só uma é importante para dar a nota. Está errado porque uma coisa é a avaliação ou depois a classificação. E paro por aqui porque depois teria de começar a falar de algo que tem a ver com uma teoria que é muito chato falar.
JOSÉ PACHECO: Então, se hoje a ciência diz agora eu vou direto através de episódio. Quando veio a primeira avaliação aferida, foi em 2000. Foi das últimas coisas que eu fiz na escola, porque depois eu fui-me embora cansado desse ministério de lutar até final de 20 anos fora do país. Então, quando veio essa prova de aferição, eu fui indicado como aplicador e como os nossos jovens não fazem teste, não fazem testes, nem fazem, nem precisam um teste, nem provar nada. O que foi que eu fiz foi pedir um teste. Emprestaram-me um teste de língua portuguesa do sexto ano. Ele estava no quarto e eu fiz cópias para quem quis aprender a fazer teste. E no dia fui com eles treinar o que era um teste e eles olharam para aquilo. É um teste de português, tem três perguntas de interpretação, perguntas de gramática e depois uma compreensão de que é só isso e são. Só posso dizer vos que são 50 minutos. Por que é que são 50 minutos? Não sei, ninguém sabe. São 50. Por acaso eu era sério. Fui procurar na pesquisa, então nós começamos a perguntar não interessa. Então um jovem diz: se acabar cedo, posso ir embora?
JOSÉ PACHECO: Não, vai ficar aqui a perder tempo, a perder tempo e agora é boa conversa. Toca a fazer, se não passa os 50 minutos se a gente não sai daqui, e eles olharam para o teste e tal, mandaram o que foi junto deles. Este texto é do Cavaleiro da Dinamarca. Um livro didático Língua Portuguesa no qual eles leem obras completas e tinham lido a obra completa. Mas, finalmente, quem identificava o texto e expôs a obra, não é isso, não sai do papel. Olhe, empresta para uma pergunta parva: o que foi que o cavaleiro viu ao longe? Responde: Eu tenho por aqui nestas cinco linhas o cavaleiro ao longe… Estava a perder tempo. Disse a ele: toca de fazer, vamos começar. Mas olharam para mim porque eu lembrei eles. Um vai embora, vá trabalhar. Não perca tempo conosco. Quando chegar aos 50 minutos, a gente vai levando o teste para você ver. Se não, não. Eu tenho que ficar na sala deles.
JOSÉ PACHECO: Mas porque é que você tem que ficar na sala? E um jovem que estava lá há pouco tempo, há pouco, diz Ah, eu sei. E eles, porque na outra escola onde eu estava era assim. O professor aplicava o teste e ficava na sala e os meus meninos perguntavam Mas porquê? E o jovem diz. Para evitar que os meninos vão copiar. Eles e ambos olharam para mim que eu não sei o que é claro que é copiar o que é copiar o visto. Eles me perguntaram o que era o dia inteiro na televisão, mas já acabou. Já sabem o que é isso que está? Vamos adiar até chegar a segunda feira. Eu comecei a fazer a chamada porque estava muito mal com o plantão que adora fazer chamada. Maria Filomena precisa dar que está chamada. Você começa a contar, mas tem que fazer a chamada para manter os alunos a uma distância de um metro, metro e meio de distância, para ele tirar tudo das paredes. Os parentes vão trabalhar esta criança. Então eu sentava. Começou a prova de português e não demorou nem cinco minutos. Uma criança mandou pra eles ali no palco direito, não para explicar que o perigo está no corpo. E lá era uma pergunta, uma resposta de escolha múltipla e na escolha múltipla tinha quatro possibilidades, mas na escolha múltipla só pode haver uma resposta.
JOSÉ PACHECO: Havia duas, e ia pedir uma colega para ficar. E fui ao telefone. Liguei para o Ministério Público. A comissão iria explicar que a única mulher era não pode ser e isso é feito por professores universitários. Na verdade, foi a aluna. Obrigado, professor, realmente não se admite uma coisa dessas. Nós pagamos também. E eu já foi professor que tb não foi nada, não fui eu, foi uma colega não. Ela que foi, a aluna desligou. Quarta feira chega ao teste de matemática e mesmo não durou cinco minutos. Uma criança vai cobrar ou não ela e ela deixa absorver. Aquela criança nunca tinha andado na universidade, tinha oito anos, nunca andou no curso de psicologia nem foi às aulas de Psicologia da percepção e do olhar, afretamento, independência, independência de campo, sentido e Palermo, que fez o teste. Não sabia isso. Foi ao gabinete de avaliação. Liguei. Ainda bem que viu o professor. Foi uma criança. Ou seja, os nossos alunos, para além de que 100% acertavam tudo e ainda por cima identificavam itens errados, coisa que nenhum professor percebeu. Dá para entender qual é a diferença?
RUI DA SILVA: Dá pra entender? E havia a riqueza dos exemplos que dão dó. Dá para perceber claramente a diferença. A conversa está muito boa. Infelizmente estamos a chegar à fase final e uma última pergunta que ele queria endereçar era que conselho é que dá para quem está na linha da frente da educação, tendo por base a sua experiência e o seu trabalho? Conselhos está por transformar as escolas em projetos cada vez mais humanistas e para esta transição para a aprendizagem e para a aplicação deste paradigma?
JOSÉ PACHECO: Quando o aluno me diz o que é copiar, ele é percebido uma coisa que tem a ver com a corrupção. Tem a ver quando é que o professor está calado na sala de aula no dia do teste, mas o não verbal fala mais alto. Ele está. Que escola são pessoas, as pessoas são os seus valores. Escola não são prédios, são pessoas. E esse professor que está na sala de aula está a transmitir valores da falsidade, da mentira, da corrupção. Porque ele pensa que eles são corruptos, só podem copiar… Então eu faço um convite. Quando me perguntam o que é que há 40 e 50 anos eu resolvi sair da engenharia para ir para a educação e dentro da educação, a escola acontece. Mas eu digo sempre que qualquer professor compreende que dando aula no ensino, qualquer outras pessoas são pessoas inteligentes, críticas reflexivas…. E quando um professor descobre: eu não posso continuar a fazer isso e tomar uma decisão ética. Convido meus colegas professores e acredito que os professores ainda agora vêm de uma reunião com 50 e tal comissão que vão fazer projetos, porque tomaram uma decisão ética de acabar de uma vez por todas com aquilo que está em qualquer aula, mas dando aula e não me pergunta como é que eu vou mudar? Eu digo um dado que não é absoluto, mas eu posso.
JOSÉ PACHECO: Logicamente, se ela sabe dar aula, se é essa a competência do professor, eu só tenho de valorizar e dar segurança. E a pessoa pergunta: mas você dá aula na vontade, senão vai dar aula comigo? Vota por paixão de escola, trabalha. Então fica o convite, o convite com um e-mail que vou deixar porque eu estou a serviço. A vida é serviço, e trabalho de graça. O meu e-mail jpacheco1951@gmail.com. A Academia tudo pra mim já trouxe. Então 1980. Como aprender se não enviar um e-mail? E é muita gente a enviar um e-mail para mim, todo o fim de semana, são mais de 100 e-mails por dia. Eu respondo todos. Podem receber uns livrinhos que não estão publicados em Portugal, em dezenas publicados noutros países. Não estão em Portugal, não sabemos lá por quê. Posso enviar para toda a gente e em Portugal a partir de 1 de Setembro. Esta é a novidade que aconselho. A partir de 1 de Setembro, cerca de 70 escolas vão mudar, quer o ministério queira quer não, vão mudar dentro da Lei Fundamental de Ciências da Educação, com professores extraordinários. Então, meus amigos, minhas amigas, não espere pelo amanhã, tomem uma decisão ética, compartir atenções para aquilo que é preciso e estarei aqui para vos ajudar.
RUI DA SILVA: Muito obrigado por este desafio ético e por este convite que deixo aos nossos ouvintes. Foi um grande prazer conversar consigo e nós podemos comprovar que responde aos e-mails porque ao fim de poucas horas enviamos um email a convidar para estar cá no programa e recebemos a sua resposta. E foi de facto um presente dele conosco. Muito obrigado por ter vindo ao Eduquê.
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