Grácia Lopes Lima
Media education as a contribution to everyday pedagogical practice
Grácia Lopes Lima, PhD in education from the University of São Paulo, is the guest of our new episode! She is the creator of the Cala-boca Já Morrreu project and coordinator of the Trecho 2.8 project, both initiatives in the media education field. Grácia Lopes Lima clarifies concepts and presents contributions of the area to basic education, with an emphasis on new approaches to pedagogical practice.
Grácia Lopes Lima, doutora em educação pela Universidade de São Paulo, é a entrevistada do 15º episódio do Eduquê! A educadora é criadora do Projeto Cala-boca e coordenadora do projeto Trecho 2.8, ambas iniciativas da área da educomunicação. Grácia Lopes Lima explica conceitos e apresenta contribuições da área para a educação escolar, com ênfase em novas abordagens de prática pedagógica.
RUI DA SILVA: Grácia Lopes Lima, seja bem-vinda ao Eduquê.
GRÁCIA LOPES LIMA: Muito obrigada, Rui, pelo bom dia. Boa tarde! Boa noite. É um prazer estar aqui com vocês.
RUI DA SILVA: Muito obrigado por aceitar estar conosco. É um grande prazer tê-la cá. Principalmente trazer o tema que trabalha não é, Grácia. Trabalha educomunicação, que tanto fazem interseção entre educação e comunicação. Pode contar para nós o que é educomunicação? Principalmente, para um público fora do Brasil, que não tem, pelo menos da minha parte, nem eu em Portugal, quando ouvia falar da educomunicação… Este termo veio do Brasil e não sabia muito bem o que queria dizer. E presumo que os nossos ouvintes que estejam, se calhar, fora do Brasil também tenham esta dúvida. Então o que é educomunicação?
GRÁCIA LOPES LIMA: Então, educomunicação é uma das áreas do conhecimento humano e é uma área que se interessa em compreender e analisar as relações intrínsecas e necessárias entre dois campos diferentes: o campo da educação, esse fenômeno social que acontece em todas as sociedades, em todos os tempos da humanidade, dentro e fora da escola, e a comunicação social que tem a ver com os recursos utilizados para estender a voz de um para muitos, via rádio, via TV e internet, via recursos tecnológicos que levam as vozes e as imagens para mais longe. Então, educomunicação é uma interface, é uma área do conhecimento interessado em entender essa relação que é intrínseca. Ela acontece, quer queiramos ou não.
RUI DA SILVA: E pode também contar para nós qual é a história deste campo? Não desta interseção, desta comunicação que existe desde sempre, mas deste campo de estudo. E o que nos traz diferente do de outras propostas que às vezes nós vemos… E o que é da comunicação. Portanto, em termos de histórico, mas também o que é que ela nos traz de novo e o que é que pode ser visível.
GRÁCIA LOPES LIMA: Então, no Brasil, tornou se conhecido a partir de 2011, com a criação de um curso de graduação aqui na Universidade de São Paulo. Só que, para entender a educomunicação, é preciso voltar no tempo para acessar a sua origem. E nós vamos voltar necessariamente se quisermos. Levando em consideração que a educomunicação tem várias concepções, eu vou passar uma bem pessoal como pesquisadora do campo. Para entender isso que vem sendo chamado de educomunicação, é preciso voltar na sua fonte, nascedouro, que tem a ver com o contexto social e político dos anos 60 e 70, especialmente na América Latina. Quando éramos considerados como quintal dos Estados Unidos, o imperialismo estadunidense se impunha e se valia inclusive dos meios de comunicação para tornar os países latino americanos submissos às decisões centralizadas nesse país, o que marca especialmente o nascimento da comunicação. É um incômodo muito grande com essa submissão dos países e com essa vontade de dominar por todas as vias as decisões nacionais. Alguns intelectuais da época se viram na obrigação de tornar mais conhecido de um modo crítico o que estava sendo feito, especialmente por meio da televisão e por meio do rádio em especial, que era mais forte até que a televisão daquela época. Vou citar aqui dois autores que têm muita ligação a ligação direta com esse movimento, que no começo nem se chamava educomunicação e nem tinha nome.
GRÁCIA LOPES LIMA: Era uma ação com a vontade de levar mais pra frente a força que os Estados Unidos tinham para submeter os países. São os autores Paulo Freire, que, do lado da educação, vai dizer que vingava um sistema educacional para ensinar a subserviência. Daí ele ter chamado de educação bancária, uma educação que se resumia em decorar conteúdos e saber conteúdos simplesmente para transmitir e não para pensar sobre eles. Uma educação alienante e ela alienador… De um lado, então, Paulo Freire, do lado da educação, e um outro autor que não é tão conhecido como deve ser, que vem da comunicação chamado Mario Kaplan, um uruguaio, uma trajetória marcadamente profissional na área de comunicação, ele foi diretor de programas de rádio, de programas de TV, conhecedor de como se produz comunicação social para que a voz de uma pessoa alcance inúmeras pessoas naquela época dos anos 60 e 70. E ainda eu diria que isso ainda vinga, são os meios de comunicação, a mais barata forma de entretenimento das pessoas… E ao entreter, essa comunicação pode também, tanto quanto a educação a qual o Paulo Freire se referia, alienar as pessoas, isto é, trazer diversão – sem diversão as pessoas enlouquecem – mas contribuir para que as pessoas não entendam criticamente, porque as coisas lhe chegam pelos meios de comunicação da forma como enxergam. Então, nos anos 60 e 70, influenciados também pela Teologia da Libertação, um movimento da Igreja Católica muito importante, que não pode deixar de ser citado…
GRÁCIA LOPES LIMA: Entendia que evangelizar as pessoas era evangelizar os pobres, era fazer com que os pobres, as camadas oprimidas, entendessem por que são oprimidas. Bem na linha do que Paulo Freire também vai contribuir para a gente entender na pedagogia do oprimido. Nesse contexto, Mário Kaplun resolve se valer de tudo o que ele aprendeu fazendo rádio, como diretor e fazendo TV. Vai se valer desses mesmos recursos e dessas mesmas tecnologias para garantir que pessoas leigas produzissem comunicação. Então, ele reúne agricultores de diferentes lugares que não se conheciam, especialmente pela distância, pela dificuldade de se verem presencialmente. Eles se valem dos recursos do rádio para conectar regiões diferentes. Mais do que isso, para conectar agricultores de regiões diferentes, existia na época. Talvez vocês mais novos nem saibam, mas se colocarem na internet, vão ver. E é muito interessante. O que existia eram gravadores grandes e fitas cassetes com lado a lado. Foi valendo se dessa alta tecnologia da época que Mario Kaplan criou o que mais tarde vai ser chamado de educomunicação. Ele usou esse recurso simples para que grupos de agricultores conversassem então com um gravador do lado A. Um grupo de agricultores de uma região falavam o que bem entendiam. Essa fita cassete era levada por vários caminhos para uma outra região e, nessa outra região, quem recebia a fita ouvia a gravação do lado A e virava a fita para o lado B.
GRÁCIA LOPES LIMA: E também gravava o que bem entendia. Lembrando bem que são trabalhadores agricultores. Essa fita passou a ir e voltar, ir e voltar. À medida em que os agricultores das diferentes regiões começaram a se ouvir e a ouvir o que os outros falavam, eles começaram a perceber que eles tinham pontos em comum na forma de trabalho que eles realizavam. Começaram a analisar as relações com os patrões, os salários recebidos, as condições de vida, as condições de trabalho aos poucos. E esse intercâmbio, que foi chamado de cassete, foram um fórum de diálogo entre as regiões e permitiu ao Mário Kaplun entender que o rádio, o gravador, estava servindo para criticamente as pessoas entenderem o mundo real e que o meio de comunicação, em vez de alienar, estava contribuindo para que as pessoas se tornassem sujeitos e não objetos da história. Assim nasce o que muito mais tarde vai ser chamada de educomunicação, que na verdade poderia ser resumido como educação para a consciência crítica para autonomia, usando-se os meios de comunicação no caso. Na época, o recurso que havia era gravador. Atualizando: qualquer meio de comunicação pode permitir que as pessoas exerçam o direito de também produzir comunicação.
RUI DA SILVA: Foi muito interessante este caminho, e eu ainda tenho idade para cassetes porque gravava também o lado A e o lado B. Mas não, este fórum parece muito interessante. Esta história, se calhar para os nossos ouvintes mais jovens.
GRÁCIA LOPES LIMA: Sim, os mais jovens e os mais velhos também. Nem todos os velhos sabem o que nós temos como síntese do que vem a ser educomunicação na sua origem e que era uma ação política. Não era algo que nasceu para entreter, não era algo que nasceu por modismo, mas por comprometimento de seus idealizadores, calcados no contexto social. Esta é uma grande marca do nascedouro e que nós, incluindo Mariana, estamos incluídas desde os anos 90, que é como que a gente inclui todas as pessoas numa ação política que significa consciência de si, consciência do lugar onde está, do modo de vida e das relações estabelecidas.
RUI DA SILVA: Exato. É também um espaço de resistência. Não é o que até as cassetes não passam por este fórum. E quando você é hoje em dia, não é com os meios de comunicação que nós temos acesso com os celulares, etc. Agora não é, as potencialidades são outras. Mas e como é óbvio, o que estamos aqui agora a gravar um podcasts com este diálogo não é ser aqui em São Paulo. E eu neste momento em Portugal, em Viseu, no centro de Portugal, estamos aqui a fazer comunicação. Estamos neste diálogo, só que agora já nos permitindo e estamos à espera do lado de ouvir o lado A e o lado B conseguimos interagir em tempo real, e se calhar, agora avançando… Olhando para, por exemplo, os episódios que lançamos recentemente. Lançamos um episódio sobre educação e colonização. Estamos nesta temporada do nosso podcast, nesta segunda temporada do Eduque a tentar olhar para outras práticas. E penso que o que nos descreveu mostra como a educomunicação pode colaborar neste processo. Nos anos 90, quando quando falou, eram as questões do imperialismo americano. Também hoje em dia pode ser usada também para esses processos de descolonização, de educação etc. Pode nos dar exemplos de como na atualidade a educomunicação está a ocorrer e tendo em conta esta evolução também dos meios tecnológicos, mas também dos vários espaços urbanos dos vários fóruns de discussão da educomunicação.
GRÁCIA LOPES LIMA: Na origem, nasceu fora da escola, nasceu na sociedade, incluindo adultos, não necessariamente alfabetizados. Com o passar do tempo, essas aproximações evidentes entre comunicação social, educando as pessoas de comunicação como aproximação necessária entre educação e comunicação social. Nós vimos que pessoas acadêmicas e profissionais da área de educação se interessaram por tentar trazer esses princípios para a escola. Então, nós hoje vemos a educomunicação muito ligada à educação escolar, à educação formal, vingando em São Paulo, por exemplo. No Brasil, nós temos uma experiência, de 2000 a 2004 de formação de profissionais da educação, de diretores, coordenadores, incluindo estudantes, para tentar aproximar isso que a gente citou que Mário Kaplun fez. Ou seja, de usar as tecnologias do rádio para que as pessoas se escutem, escutem e assim escutem os outros e se organizem de forma a construir uma sociedade solidária, aberta ao diálogo e promotora de direitos. Quando chega na escola, a coisa se complica, porque não há como a gente esquecer que toda a escola ela é calcada no modelo político governamental para atender o sistema. Isso é inegável. Dependendo do tipo de sistema e o tipo de educação. E aí? O que acontece ainda, infelizmente, é que essa experiência de Mario Kaplun ainda não se desenvolve como poderia ser, por dificuldades, pelos emaranhados burocráticos e próprios do sistema educacional escolar, que é estar preso a conteúdos escolares.
GRÁCIA LOPES LIMA: Quando a gente retoma a origem da educomunicação, não havia uma grade curricular, não havia outra coisa. Se não há necessidade de falar sobre a vida real de fora dos espaços de um lado. E havia, por outro lado, o interesse de quem estava na coordenação de promover um debate em cima das coisas da vida. Agora, a escola, infelizmente, não se ocupa dos temas da vida. Por mais que ela procure metodologias, ela ainda tem uma prisão nos conteúdos, nas grades curriculares. Então nós vemos hoje trabalhos muito interessantes, mas ainda mantendo muitas características da educação formal. Que se resume em quê? Em haver um professor que teme o rumo da comunicação, que os alunos possam realizar e que teme a reação de pais, teme a reação da diretora pelos conteúdos fornecidos pelas bocas das crianças dos adolescentes. Então nós temos que reconhecer que é um grande passo ter entrada na escola de comunicação, mas é preciso olhar criticamente que tipo de educomunicação está sendo realizada sem grandes avanços, com certeza, em São Paulo. Esse trabalho realizado é de 2001 a 2004 e se tornou uma política pública fantástica. Tem um potencial inegável, mas ainda é preciso muito avanço para a gente conseguir transformar os meninos e meninas em sujeitos e não obedientes domésticos.
RUI DA SILVA: Como sabemos que a Grácia esteve envolvida em projetos, também sabemos que, na prática, nem todos estes processos estão ligados a esta grade curricular. E esta formatação por parte do professor pode partilhar conosco, por exemplo, o percurso do projeto Cala a Boca Já Morreu? Não é, que sabemos que a Grácia esteve envolvida e a Mariana está conosco, da produção deste podcast, esteve envolvida e os nossos ouvintes que estavam interessados podem ouvir o nosso “podcast-mãe”, o Fresh-Ed, E podem ouvir um episódio muito interessante, onde ela fala do percurso e fala desse projeto Cala a boca Já Morreu. Mas se calhar voltando para si, pode então partilhar este percurso… O projeto Cala a Boca Já Morreu… E se calhar começando, eu peço já eu para quem está cá em Portugal, o nome Cala a Boca Já Morreu. Donde é que ele vem? Porque a nós este nome nos diz, eu sei que está ligado à brincadeira e a jogo de crianças, mas se calhar começar por aí, se quer e depois explicar-nos então este percurso e como este projeto se calhar está ligado a esta perspectiva mais emancipatória e de criação de sujeitos que é um dos fins da educomunicação que nos explicam.
GRÁCIA LOPES LIMA: Falar do projeto Cala-Boca Já Morreu é uma forma de renovar as esperanças, porque na época a gente nem sabia que existia educomunicação, muito interessante. Na época, éramos dois professores, ou seja, da área da educação, inquietos com a educação. E na nossa região havia uma rádio comunitária diferente da comunicação hegemônica dos grandes meios de comunicação, na mão de grandes empresários, que tem a finalidade de fortalecer as pequenas comunidades. O Cala-Boca Já Morreu nasce como um programa de rádio. Em 1995, aqui na zona oeste de São Paulo, nasce de uma parceria que é um ponto importantíssimo a se destacar como necessário quando se pensa em educomunicação. Para a emancipação, sozinhos, nós não damos conta da educação das pessoas. É preciso estar junto. Quanto mais pessoas envolvidas, maior a possibilidade de a gente promover uma educação boa da meninada que está por aí. Em 95, então, a gente se aproxima de uma rádio comunitária e reúne um grupo de crianças de diferentes idades. Nós tínhamos crianças de 7 a 12 anos de idade que se formou da seguinte forma eu me emociono e me encanto, porque é maravilhosa a forma com que nasceu. Duas crianças, primeiro um menino e uma menina, começam a convidar outras pra fazer um programa de rádio. E eu era professora. As próprias crianças acabam formando um grupo heterogêneo de dez escolas, diferentes, idades diferentes e realidades socioculturais muito diferentes.
GRÁCIA LOPES LIMA: Havia o que eles chamavam na época de crianças riquinhos e crianças pobres, todas no mesmo grupo. E nós fazíamos um programa de rádio todo domingo na Rádio Cidadã, essa emissora comunitária do Jardim Bonfiglioli, sob direção de Lucy Martins. O que eram esses programas, na reunião que era chamada de produção com as crianças, no Instituto Gens, da qual eu e Donizete Soares éramos responsáveis? As crianças definiam o assunto do programa de rádio e o assunto era levado ao ar em forma de conversas e de comentários, de atendimento de telefonemas e sobre o tema escolhido. Durante um bom tempo, os temas tratavam de questões existenciais, questões como relação entre irmãos, relação com os pais, dias de prova, temas da vida, material concreto dessa escrita. O interessante é que o programa não tinha um público-alvo limitado a crianças. Nós tínhamos um público que ligava muito pra rádio voluntária das mais diversas idades. Muitas vozes acompanhavam, avozinhas e cozinheiras acompanhavam os programas, e crianças também. Aos poucos, os temas existenciais se esgotaram. E aí, sobre o que o grupo vai querer falar agora, quando isso acontece, já havia passado quase um ano da experiência e as crianças passaram a escolher temas para os outros temas, para os programas e aí, para evitar competição e evitar invejas. Isso existe entre as crianças também não é competição, inveja, estão sempre presentes. As crianças podiam escolher ser âncora de um bloco, de uma parte do programa e âncora não significava a pessoa mais importante do bloco, âncora e aquele que impediria que o barquinho ficasse à deriva, segurasse o barquinho no tema escolhido para o bloco.
GRÁCIA LOPES LIMA: E aí surgiram blocos. Mariana Casellato, que está na produção desse podcast e, por exemplo, realizou um bloco lindíssimo chamado Leitura da Hora. Por exemplo, um dos blocos que ela pôde ancorar chamava-se Leitura da Hora, quer dizer Leitura Legal, que era um bloco em que o grupo, sob a ancoragem da Mariana, podia comentar os livros que lia. E aí entra um outro aspecto importante nas parcerias, que era a gente conseguir que as editoras nos mandassem livros e as crianças liam muito todos os livros antes de vir um autor conversar com elas no estúdio. As conversas com os autores desse bloco específico era sobre os livros que as crianças efetivamente tinham lido porque queriam ler e não porque a professora mandou. Esse era um bloco. Nós tínhamos o bloco Criança Ecologia, nós tínhamos o bloco Notícia Quente e com a gente o Notícia Quente. Era um bloco pra comentar as coisas que chocavam os sentimentos, as emoções das crianças, como por exemplo, a ruína que aconteceu na explosão de um shopping na região. Então o programa Cala-Boca Já Morreu acabou sendo um programa de rádio que mostrava que crianças têm o que dizer sobre qualquer assunto, desde que elas estejam num grupo e que ela não se sinta individualista.
GRÁCIA LOPES LIMA: Ninguém faz programa bom sozinho. Então, o grupo fazia um programa bom. Com o passar do tempo, não muito tempo demorou para que essas produções domingueiras ficassem conhecidas e passássemos a receber provocações. Depois do programa de rádio, apareceu uma outra provocação do próprio grupo de criança: nós já fazemos um programa de rádio, por que a gente não faz um jornal? Por que os jornais de crianças são sempre feitos por adultos? Aí uma nova parceria acontece. Conseguimos um diretor de uma grande rede de jornais de bairro e fez um encarte do jornal Cala-Boca Já Morreu, que era distribuído pelas casas e estabelecendo um diálogo entre as crianças e o público de verdade. Tanto o jornal quanto o programa de rádio tinha a mão direta das crianças, escolha do tema, duração dos blocos, nomes das partes que compunham o programa, o jornal, a locução e um outro aspecto que era o aspecto técnico a gravação dos programas. A digitação do jornal era feita pelas próprias crianças e, pasme, nós tínhamos à época apenas um computador e dez crianças para digitar as matérias. Essa foi a segunda provocação que nós recebemos. Aí veio uma terceira. Vocês já lidam com a linguagem do rádio? Vocês já trabalham com a linguagem do jornal impresso… Sem TV comunitária. Por que não experimentam fazer TV? Conseguimos uma nova parceria e aí as crianças puderam segurar uma câmera e fazer gravações pelo bairro.
GRÁCIA LOPES LIMA: Câmeras profissionais, microfone profissional. E começamos a aprender a fazer televisão. Chegamos a fazer cinco programas que foram veiculados de verdade, como as crianças diziam, no canal comunitário da cidade de São Paulo. Esse conjunto das três atividades nos levou a dizer a gente acabou de montar um projeto, um projeto de educação que nos mostra que os meios de comunicação servem para educar as crianças, não para serem vaidosas, não para serem a mais bonita, não para serem artistas. A intenção não era essa. A intenção era que eles sentissem prazer por aprender e eram extremamente curiosos em tudo o que queríamos, só para citar. E aí eu não quero me estender muito, porque eu adoro recuperar essa história. Certa vez, as crianças queriam falar sobre serpentes no bloco Criança Ecologia e aí a gente combinou isso. O que vocês querem falar? Estudem e revejam o que aprenderam na escola sobre serpentes. Mas a gente quer entrevistar alguém também sobre esse assunto e conseguimos levar para o estúdio de rádio da Rádio Cidadã. O diretor da divisão educacional do Instituto Butantã para conversar com as crianças sobre o tema. E não é que as perguntas tornaram mais vivas essa possibilidade de educação pelos meios? Numa das perguntas feitas pelo professor Marcos Ferreira, uma criança pergunta: Marcos, cobra fecha o olho para dormir? Eu, como professora na minha cabeça, isso é pergunta que se faça!
GRÁCIA LOPES LIMA: Que vergonha! Que pergunta! O professor Marcos sorri e diz assim: cobra não fecha os olhos para dormir porque ela não tem pálpebras. É mesmo? E eu também. Como adultos, eu não sabia. Aprendi. E na sequência, outra pergunta: Marcos, cobra fica resfriada? Cobra tem gripe? E eu de novo: meu Deus, se isso é pergunta que se faça! E o professor Marcos esclarece, rindo com toda a satisfação. Olha, cobra, fica doente, sim. Cobra tem gripe sim, é no Instituto Butantã. Por conta disso, existe um quartinho de quarentena para onde as serpentes vão tomar antibiótico e saírem de lá só depois que estiverem boazinhas. Professor Marcos até hoje diz que está acostumado a conceder entrevistas pelo Instituto Butantan para organismos internacionais, e considera essa a melhor entrevista que ele concedeu. Porque as perguntas que as crianças fizeram, os comentários ligando inclusive com mitologia, eram feitas pela curiosidade e pela vontade de saber, e não simplesmente para preencher um espaço vazio. Então Cala-Boca Já Morreu reuniu as crianças. Ficamos juntos muitos anos sem torcer para que elas fossem radialistas, comunicadores. Não era essa a nossa intenção. Ao final de um bom tempo de vida, a gente vê. Cada um descobriu sua vocação e estão nas mais diversas áreas de atuação. E levando pra frente a emoção desse tempo de formação de educação, os anos.
RUI DA SILVA: Obrigado Grácia por nos falar desta experiência tão rica e de fato, quem não lida com as crianças como se eles fossem sujeitos e quem não sabe como é exatamente a curiosidade das crianças… E as perguntas que elas fazem geralmente são interessantes e dão nos outra perspectiva. Mas falta nos explicar para os ouvintes que não sabem: o que é Cala-Boca Já Morreu? Por que este nome?
GRÁCIA LOPES LIMA: É uma expressão que nós descobrimos que existe em todos os lugares. Cala a boca e fica quieto. Não opine sobre as coisas. Se você é criança, isso não é assunto para criança. Se você é velho, você já está antiquado. Você não tem o que dizer. Então, cala a boca. E aí, para negar essa vontade de calar a boca das pessoas, surge o oposto: “cala a boca”, essa fase já morreu, já passou. Nós temos o direito de dizer o que nós bem quisermos, com todo respeito. Tudo o que sentimos e pensamos. E aí o Cala-Boca Já Morreu. O projeto tem um subtítulo que: Cala-Boca Já Morreu – O que nós também temos a dizer?
RUI DA SILVA: Como nós sabemos, as crianças têm sempre o que dizer, desde que elas tenham esse espaço e sejam tratadas com esse respeito e não sejam tratadas como não sendo sujeitos ou não são tratados como objetos.
GRÁCIA LOPES LIMA: Ao ler Mário Kaplun, a gente vê relatos muito interessantes, muito semelhantes ao que a gente viu no Cala-Boca Já Morreu, mulheres agricultoras no grupo, tudo coletivo. Isso é um dado importante. Muitas mulheres ao fazerem programas de rádio ficavam quietas porque achavam que não tinham direito de falar do jeito que elas sabiam falar e ficavam em silêncio. Somente aos poucos foram adquirindo essa facilidade, essa possibilidade de transformar em palavras, inquietações, sonhos etc.
RUI DA SILVA: Daí que não há perguntas certas e erradas, há perguntas e a curiosidade. E é muito interessante ter falado em Paulo Freire. Também lembro aos nossos ouvintes que não ouviram na primeira temporada do nosso podcast: temos quatro episódios dedicados a Paulo Freire. Quem não ouviu, sugiro que que vão ouvir. Fala-se desta questão da educação bancária e a volta da pedagogia do oprimido. E podem fazer várias ligações para o que a Grácia nos contou cá sobre o que é o da comunicação. A conversa está muito boa, mas infelizmente estamos a chegar ao fim e se calhar como encerramento da nossa conversa… Se calhar a pergunta que lhe deixo é acho que já do que fomos ouvindo, já deixou algumas pistas, já deixou algumas pistas que é tendo por base esta sua experiência, essa sua longa experiência. E que conselhos é que dá a quem está na linha da frente da educação? Falou já em coisas muito importantes, não é? Falou em parceria, não se faz nada sozinho. Uma parceria, no verdadeiro sentido da palavra. Mas que conselhos é que dá a quem está na linha da frente da educação para implementar projectos de educomunicação ou ter projectos que tenham por fim esta filosofia?
GRÁCIA LOPES LIMA: Alguns aspectos que para nós são essenciais. Primeiro, que as produções têm que ser coletivas. A escola ainda, infelizmente, escolhe para falar no rádio, aparecendo no vídeo o melhor aluno da sala, com mais desenvoltura. Quando isto acontece, fortalece o individualismo, a vaidade, a rixa entre os que não podem ser os desconectam. Educomunicação na escola exige que entendam que as produções têm que ser coletivas, primeiro. Segundo, com as produções, que têm que partir de temas levantados por vontade do saber das crianças. Não se delega temas desse ponto de vista que nós falamos de comunicação como sinônimo de educação pelos meios. Tem que nascer da vontade das crianças, dos jovens saberem qual é o assunto que as crianças e os jovens querem falar. Terceiro, exige que os coordenadores, os responsáveis, não temam o que virá como conteúdo. O que virá servirá para as crianças se conhecerem mais, os jovens se conhecerem mais e também os adultos saberem mais de fato sobre a sua atuação como adulto na formação desses jovens. O que assusta? O que vier a assustar é um alerta, porque é resultado da educação recebida por essas crianças. E já o outro aspecto é parceria. A educação, assim como a gente citou no Cala-Boca Já Morreu, ela é para fora e abrir horizontes, abrir oportunidades para que essas crianças e esses jovens conheçam outros espaços. Sair da escola é muito importante. Ficar dentro da sala de aula e confinar o conhecimento ao programa de rádio e vídeo, seja o que for, podcast, que hoje também está sendo feito na escola, possibilita circular pelo mundo de verdade. Recentemente tivemos uma experiência muito interessante. Na época da pandemia, eu fiz uma consultoria pela Unesco para a prefeitura e para a Secretaria de Educação aqui de São Paulo.
GRÁCIA LOPES LIMA: E nós usávamos só as tecnologias à distância. Não havia a possibilidade da aproximação. E não é que a meninada conseguiu fazer entrevistas nas unidades de saúde dos bairros, entrevistando pelo WhatsApp, profissionais da saúde, usuários da saúde para dizer como é que está a qualidade da saúde na nossa cidade. Isso possibilitou a meninada descobrir coisas incríveis, inclusive que o sistema que nós temos, por maiores que seja as deficiências, é uma das maiores políticas públicas de saúde do mundo. Então, educomunicação deve permitir que as pessoas saiam da escola e não fiquem confinadas. E, por fim, a figura central é o responsável pelo trabalho. Aprender a não ser centralizador e a não deter a autoridade talvez seja a coisa mais difícil de acontecer. Deslocar-se no lugar de ensinar dor, buscando horizontalidade na relação, o que não significa ter relações suaves. Momentos de muita tensão. Por quê? Na vida real, a criança não é separada de adulto. A gente vive tensões e é preciso falar da censura. Agora, isso a gente pode aprender a falar com firmeza, mas com doçura. Então, a pessoa responsável pelos trabalhos de educomunicação tem que estar aberta a também aprender. Não é ensinar as crianças e com as crianças. Aprender. É estabelecer relações humanas respeitosas e assegurar o direito. Só assim a gente pode recuperar o sonho dos anos 60 e 70, via Paulo Freire. Além da gente construir uma sociedade diferente dessa que é cruel, que é desumana, que é individualista, egoísta, maldosa. Não é só construindo e construindo junto, é aprendendo junto. Por isso que a gente diz que educomunicação é sinônimo de educação pelos meios e é sempre uma ação política. Não é para melhorar a qualidade da educação, não é para diminuir violência. É para gente aprender a ser mais humano.
RUI DA SILVA: Exato. Com esta dica final que esperamos que é a educomunicação seja mais usada na escola, que aprendamos todos a ser mais humanos, e tenho a certeza da sua experiência que nos relatou estes projetos que deixam de certeza marcas para o futuro das crianças, para esta construção de seres humanos mais solidários e com o pensamento crítico. E como todos os atos são atos políticos, não é mesmo? Quem diz que é neutro está a tomar uma posição política. Grácia, muito obrigado por ter vindo ao Eduquê, eu agradeço.
GRÁCIA LOPES LIMA: Fico muito feliz pelo convite e fico a disposição para a gente ter outras conversas. Conversar sobre as coisas que nos incomodam? É o melhor caminho da gente rever posturas. Um abraço a todos e todas.
Translate this transcript into any language. Before you do, we’d love to know a little about who this is for — it helps us understand which language communities find FreshEd useful.
Translations are limited to 10 per day per visitor to keep this free for everyone.
Have any useful resources related to this show? Please send them to info@freshedpodcast.com



